terça-feira, setembro 19, 2006

O que foi feito da vida, o que foi feito do amor..

Um sábado destes fui ao cinema com minha filha. Terminado o filme, caminhando para a área de alimentação do shopping, cruzamos com duas jovens, uma delas empurrando um carrinho com um bebê.

Elas se aproximaram de nós, e minha filha, sorridente, disse- me que a moça que estava empurrando o carrinho era sua amiga, tinha sido sua professora de informática. Conversamos um pouco, brincamos com o bebê, e nos fomos.

Comentei com minha filha: “Bonitinho o bebê da sua professora!”

Minha filha sorriu e disse que sua professora era a avó, o bebê não era dela e sim da menina que estava ao lado, que é sua filha!

Surpreso, perguntei quantos anos ela tinha: quinze anos, respondeu minha filha, teve o bebê com 14, resultado de uma “ficada” em uma dessas festinhas realizadas para tal fim! Obviamente é mãe solteira, não se sabe quem é o pai!

Ao saber disso, pensei imediatamente sobre o que tenho lido em reportagens, e no meu contato com essa realidade através de conversas com amigos e com adolescentes e jovens adultos. Tenho me dedicado muito a pesquisar esse tema em função da preparação do conteúdo do Projeto “Boulevard des Capucines”.

Essa é a triste realidade atual de uma enorme parte da nossa juventude: “divertir-se” sem limites em festas embaladas com muita bebida, drogas e sexo sem amor (eles chamam isso de diversão).

Festas concebidas para estes jovens encontrarem-se e “ficar”, “pegar”, etc. Fazem “listas” e competem entre si para ver quem “ficou” mais, ficou mais “xapado”, símbolo de “status” entre muitos deles. Jovens que vêem a vida passar pela internet, normalmente com o que há de pior na rede mundial (sites pornográficos, sexo virtual, comunidades e relacionamentos com objetivos obscuros, etc.), e que juntamente com o que a mídia determina como uma pessoa de sucesso (com objetivos estritamente comerciais, é claro) é, para uma parcela significativa deles, a sua principal influência. Buscam sua auto-afirmação em celulares incrementados e roupas de marca.

Total insanidade, cujo resultado é a gravidez precoce, acidentes de carro fatais, e marcas psicológicas que ficam para o resto de suas vidas. Garotinhas com 7 anos de idade já dançando “na boquinha da garrafa”, que aos 10 ou 12 anos já transam, e chegam aos 20 anos não como jovens adultas, mas como “velhas” já marcadas por todo tipo de experiências sexuais sem amor, que carregarão pelo resto de suas vidas.

Segundo estatísticas, são nove milhões de jovens brasileiras grávidas, com idades entre 14 e 19 anos. Com certeza 9 milhões de bebês que, ou serão abortados, ou crescerão sem condições materiais e afetivas adequadas, o que só trará mais problemas e desesperança para uma sociedade vazia e sem referenciais adequados, perdidos com o “progresso” material e com a absoluta ausência de desenvolvimento humano e espiritual.

Comentei com minha filha o que estava se passando na minha cabeça; ela concordou, e, com certa tristeza, disse o seguinte: o pior pai, é que o jovem que não é assim ou não quer isso, é considerado um “babaca” e rejeitado pelo “grupo”, e às vezes rejeitados pelos próprios pais, que passam a vê-los como anti-sociais e “anormais”. Pais ausentes física e afetivamente, por razões as mais variadas, por este estilo de vida urbano e moderno.

Mas há esperança! E esta esperança eu comecei a ter depois que publiquei meu livro “Boulevard des Capucines”, que me proporcionou a oportunidade de relacionar-me com muitos jovens fãs da inesquecível Elis Regina Carvalho Costa. O comentário da minha filha me lembrou a vivência de uma dessas fãs de Elis, que, infelizmente passou por muitas dessas experiências relatadas, mesmo violentando seus princípios e valores, ainda em formação, arrastada pela pressão do grupo para ser “igual” a todos, ser “aceita”, e pela ausência dos pais e de referencias que pudessem apoiá-la e ajudá-la. Ela esta lutando para superar as conseqüências do que viveu, e me falou de como está sendo inspirada por uma belíssima canção de Milton Nascimento, gravada por Elis Regina nos anos 80, chamada “O que foi feito Deverá (de Vera)”.

A letra se refere a tempos difíceis, como os que estamos vivendo, (o que mostra como o que Elis Regina cantava é transcendental) e da esperança no futuro buscando a luz do passado, que é o tema do primeiro módulo do meu projeto: “Revisitando a sua história: a luz do passado como referência para o futuro”. Essa música é um chamado para os jovens à vida, aos sonhos, aos valores perdidos, ao futuro da humanidade...

“O que foi feito amigo, daquilo que a gente sonhou...

O que foi feito da vida, o que foi feito do amor?

Quisera encontrar aquele verso menino...

Que escrevi há tantos anos atrás

Falo assim sem saudade, falo assim por saber...

Se muito vale o já feito, mais vale o que será...

E o que foi feito é preciso conhecer para melhor prosseguir

Falo assim sem tristeza, falo por acreditar...

Que é cobrando o que fomos, que nós iremos crescer...

Outros outubros virão, outras manhãs plenas de sol e de luz...”

Assim, dedico este artigo a esta jovem, e a todos os jovens que como ela, não querem ser “iguais”, e precisam de referencial e orientação para sair desta realidade insana que vivem os jovens de hoje. O projeto “Boulevard des Capucines” é dedicado a eles, o seu principal foco. A escolha do tema deste projeto é, na verdade, resultado da minha experiência de vida que envolve a atividade artística musical, a literatura, a realização de palestras no meio universitário e profissional, a liderança de equipes multidisciplinares de trabalho em projetos de tecnologia da informação, e uma biografia marcada por profundas mudanças. Achei que seria muito proveitoso transmitir toda esta experiência e por em prática e testar o aprendizado e as idéias que desenvolvi ao longo do caminho.

Este projeto (veja mais informações no meu site www.jrsarsano.com.br), propõe um trabalho conjunto entre a Cultura e a Transferência de Conhecimento e Experiência de Vida. Por um lado, por divulgar e preservar a memória da história da música popular brasileira, focalizando a obra de Elis Regina Carvalho Costa. Por outro, para passar experiências de vida, com o intuito de ajudar as pessoas a traçar o seu futuro, lidando de forma positiva com os ciclos, mudanças, e as diferentes fases (idades) de suas vidas. Pretendo com isso contribuir para termos uma sociedade e um país melhor, objetivos estes, sempre perseguidos pela inigualável e inesquecível Elis Regina de Carvalho Costa.

quarta-feira, agosto 23, 2006

Boulevard dos Capucines, José Roberto Sarsano


Resenha por Cris Passinato (Editora "Caderno R")
19/07/2006

Conheci José Roberto Sarsano através de uma dessas conversas virtuais de comunidades de artistas que gostávamos em comum.

Por acaso, com grande simplicidade e simpatia ele veio se aproximando aos poucos das pessoas e com uma generosidade cativante foi relatando alguns fatos de sua experiência na área da música, já que tornara-se um grande executivo, e já dela afastado com uma maturidade imensa pôde nos dar o presente maior: seu livro - "Boulevard des Capucines", que pode ser melhor contemplado o seu projeto, biografia através da leitura do site http://www.jrsarsano.com.br.

O título provém do Boulevard onde se localizava o hotel onde ficaram hospedados, não só ele, bem como a própria Elis Regina, cantora para quem seu Bossa Jazz Trio tocava e pela imensa projeção aqui no Brasil em diversos circuitos e turnês, festivais, juntos e em separado, essa parceria rendeu-lhes apresentação no Olympia de Paris, com toda pompa e glamour de verdadeiros super-stars, na época.

O livro não se trata de uma auto-biografia, e nem tão pouco uma parte de biografia da Elis Regina, mas sim um relato da visão de alguém que viveu de perto todas as emoções de determinados bastidores de uma época que foi considerada quase que por uma imensa maioria de pessoas, como época de outro da música brasileira e quando a MPB de vanguarda despontou para as mudanças e até mesmo, muitas vezes vencendo algumas contrariedades e problemáticas de política e censura que nosso país ficou refém por tanto tempo, o que poderia ter levado à atrofia geral dessa casta de artistas, o que foi o contrário e o autor desenvolve muitíssimo bem um cenário que com suas palavra podem ser desenhados e imaginados, aliando-se ao acervo inédito de fotos que foram disponibilizadas de seu acervo pessoal que arrematam uma costura de uma obra-prima de verdade.

O produto final dessa aventura a que Sarsano nos convida a embarcar é uma viagem aos tempos áureos em que uma das maiores divas e cantoras da nossa MPB, ainda era uma moça que notava-se a ingenuidade, porém sua presença de espírito e seu adianto frente a determinadas questões já eram denunciados.

Isso tudo é relatado de forma afetiva e apaixonada pelo autor, com uma elegância e ternura incríveis, cativando-nos como sempre o fez para a leitura quase que intermitente de seu livro, que se consegue fechar a sua última página em no máximo 1 semana.

Eu o fiz dessa forma, por querer degustá-lo, a cada palavra, o livro deixa saudades quando chegamos a sua última letra.

Cristiana Passinato é professora e técnica em química pela ETFQ-RJ e UERJ e termina seu bacharelado nas Faculdades Souza Marques no Rio de Janeiro e leciona química, física e matemáticas nos apoios escolares dos bairros da Barra da Tijuca e Recreio dos Bandeirantes. Na internet é ativa e-escritora onde redige e editora seu próprio site e eBooks, escreve para algumas antologias, reuniões e revistas de associações de poetas, como a APPERJ - Associação dos Poetas Profissionais do Rio de Janeiro, e hoje atua também nas causas de voluntariado social, educacional e ambiental, procurando se integrar e atuar em diversas ONG´s e Institutos ligados a atividades do terceiro setor ligadas aos seus interesses. Seu sonho é escrever um livro presencial, como um dia fez um primo distante que de tão poeta e apaixonado se foi tuberculoso: Castro Alves.

Ensaio - Veleiro

Veleiro... Mar e destino, mistério e saudade... Esta canção conta parte de uma época de ouro... Difícil explicar os sentimentos... Passado, presente, pessoas, caminhos... Tudo se mescla! Mas eles estão aí, presentes em minha vida, e, assim como o vento e o deslizar suave do veleiro pelo mar, vão me impulsionando para o futuro, para o meu destino!

Veleiro (de Edu Lobo e Torquato Neto) foi uma canção que conheci através de Elis Regina, e que tive a honra de gravar com ela. Sempre tive uma predileção especial por essa música! Além de ser linda, também pude realizar meu sonho de gravar tocando com uma orquestra. E que orquestra! Arranjo e regência do maestro Francisco de Moraes e a nata dos músicos de São Paulo. A melodia, o significado das palavras, o ritmo, o arranjo musical e a força da orquestra, a magia da interpretação de Elis, tudo mexe comigo, me fascina! Fragmentos de lembranças, trazidos por este veleiro que retorna... O ambiente do estúdio de gravação, os ensaios, momentos de tensão e descontração, lágrimas, sorrisos de aprovação junto à mesa de mixagem, olhares de cumplicidade... Tudo se soma!

Por muito tempo, depois que deixei a vida artística, Veleiro ficou adormecida na minha memória. Mais recentemente, quando decidi escrever "Boulevard des Capucines", Veleiro e Elis voltaram à minha vida com uma força impressionante, e esta canção ganhou um sentido muito especial.

Veleiro, hoje para mim, parece ser um pedido para que eu realize a parte que falta da minha missão de vida, que interrompi faz muito tempo, quando parei de tocar e abandonei a vida artística... Segui outros caminhos, porém Elis Regina e o Bossa Jazz Trio nunca saíram da minha vida. Nossas realizações ainda me inspiram e me impulsionam a realizar o que falta... Agora, como diz a letra de Veleiro, está na hora, no tempo, e tem que ser agora (depressa), porque deixei o tempo passar e há muito que fazer...

O projeto “Boulevard des Capucines”, e tudo o que dele resultar em contribuição a cultura, ações de caridade, e ajuda às pessoas, é a essência da parte que falta realizar na minha missão de vida, inspirado por esta luz que vem do passado que, de certa forma, me dá “o braço forte e o rumo certo”. Veja só, a letra da música, e procure ler com os olhos do coração:

Ê, ô, tá na hora e no tempo
Vamos lá que esse vento traz vontade
(Recado) de partir

Beira de praia
Não faz mal que se deixe
Se o caminho da gente vai pro mar

Eu vou, tanta praia deixando
Sem saber até quando eu vou
Quando eu vou, quando eu vou voltar

Ê, ô, vou pra terra distante
Não tem mar que me espante
Não tem, não

Anda, vem comigo que é tempo
Vem depressa que eu tenho
Braço forte e o rumo certo

Ah! Que o dia está perto
E é preciso ir embora
Ah, vem comigo nesse veleiro

Tá na hora e no tempo, ê,ô
Vamos embora no vento, ê,ô



Esta canção pode ser encontrada no disco “Elis 66”, produzido por Luiz Mocarzel, e relançado em CD em 2004 pela Universal Music – Philips.